OPERAÇÕES: QUANTIDADE VERSUS QUALIDADE
Esta história é fictícia. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
Ano de 3028. Sexta-feira, 17h30min.
O Sargento Moisés desembarcou do ônibus e caminhou até o Batalhão da FPM (Força Pública Militar), onde foi recebido com uma calorosa continência da sentinela. O Moisés era muito mais policial que militar. A continência foi prontamente retribuída, e o sargento fez questão de cumprimentar a sentinela com um aperto de mão. Os dois conversaram rapidamente. Por dever regulamentar, o sargento se dirigiu à sala onde ficava a Companhia à qual pertencia.
- Com licença, senhor capitão – disse energicamente, após tomar posição de sentido - Sargento Moisés, permissão para entrar no recinto.
- Entra – respondeu o capitão, sem lhe dar muita atenção.
- Senhor, alguma ordem especial para o turno? – indagou o sargento.
- Nenhuma. . . Ah! Não deixe de fazer as operações previstas. A P3 tá cobrando.
O sargento Moisés achou que já tinha passado da hora de por um fim naquelas operações fantasmas. Uma hora iria sobrar para ele. Quem conhece o mínimo de tática e de técnica policial sabe que é um extremo disparate fazer blitz à noite com apenas dois policiais. Um automóvel pode estar ocupado por até cinco pessoas. Serão cinco possíveis infratores contra dois policiais. Não se tem a mínima supremacia de força. Além disso, os faróis dos veículos ofuscam a visão dos policiais, impedindo que se veja o interior do automóvel. A despeito dessas dificuldades, a Companhia agora queria que se abordassem até coletivos e vans. O sargento achou que isso estava indo longe demais. Resolveu ponderar.
- O senhor não acha muito arriscado fazer essas blitze de trânsito com apenas uma guarnição de dois policiais militares? Não tem supremacia de força nenhuma!
- Moisés, essas operações vêm de cima. Eu só coloco na escala. Mas. . . não é tudo blitz de trânsito. . . é?
- Senhor, no nome, não! Mas, no final, tudo é blitz de trânsito.
Para não ficar sempre com a mesma denominação, a FPM havia criado denominações diversas para as blitze de trânsito. A FPM é muito criativa mesmo, vejam só os nomes: “viagem com segurança”, “linha de segurança”, “operação van clandestina”, “operação moto de aço” e “operação 4-4-4”, que consistia em abordar quatro coletivos, quatro taxistas e quatro motocicletas. No final, tudo era blitz de trânsito. Só haviam diversificado as denominações.
- Moisés, faça o que puder ser feito. As operações têm quer ser geradas - disse o capitão.
- Por isso mesmo, senhor. Se têm que ser geradas, têm que ser feitas. Eu temo pela segurança da guarnição. É complicado fazer blitz à noite.
- É como eu estou te falando, Moisés. Isso vem de cima. É a P3 que elabora a escala de operações. Segundo eles, as operações são baseadas em estudos estatísticos dos crimes.
- Senhor, na escala está previsto que todo dia tenha operação “van clandestina” às três horas da madrugada na Rua Lima Francisco. O senhor conhece essa rua?
- Não.
- Senhor, lá não passa nem alma penada nesse horário, quanto mais van. De onde que eles tiraram que lá devia se fazer operação “van clandestina”.
- Moisés, eu te entendo. Contudo, como eu te falei, essas operações são definidas pela P3. Eu não posso fazer alterações.
O sargento entendeu que aquela conversa não iria levar a lugar nenhum. Na verdade, o sargento sabia que o secretário de segurança estava cobrando dos comandantes a redução dos índices de criminalidade. Seria a base da campanha do governador à sua futura candidatura à presidência. A pressão vinha de cima. Bem de cima. O alto número de operações seria um engodo para mostrar ao secretário e ao governador que a FPM estava empenhada na diminuição dos índices de criminalidade.
Um mês depois, numa sala ampla, estavam reunidos o comandante do batalhão, o secretário de segurança e diversas autoridades.
- Senhores, - disse o comandante, com falso orgulho - realmente tivemos um aumento no número de arrombamentos na área do batalhão. Mas, como os senhores podem ver no slide, aumentamos em 100% o número de operações de combate a perueiros.
Na noite desse mesmo dia, enquanto o sargento Moisés colocava os cones na Rua do Faraó para combater os perueiros fantasmas, um cidadão infrator arrombava tranqüilamente um estabelecimento comercial situado no outro lado do quarteirão.
Viva o aumento do número de operações!
Autor: Pracinha

setembro 3rd, 2008 at 19:34
[...] extrapolam a prevaricação e acabam por trazer deletérias conseqüências aos praças; falei das operações fantasmas, que são determinadas pelos oficiais sem se fazer nenhum planejamento prévio e acabam por não [...]