CONVERSA DE VIATURA
Ano de 3028.
Domingo, 17 horas. Sol escaldante.
A viatura 15230, da FPM (Força Pública Militar) encontrava-se parada na estrada de acesso ao Distrito de Córrego da Mata, via não pavimentado de pouquíssimo movimento. O Sargento Moisés e o Soldado Rambo estavam na viatura. Eles estavam fazendo ponto base naquele local havia mais de quinze minutos. Nada tinha passado por eles. O soldado perguntou ao sargento:
- Senhor, até quando nós vamos ficar aqui?
- Mais uns cinco minutos. Por quê?
- Não passa nem carro de boi aqui!
- Pois é.
- Os traficantes devem estar tranqüilos lá na Favela do Cabrito. Sargento, por que o senhor parou de ir lá?
- Depois que criaram o bloco programa tá difícil. A gente tem que cumprir o bloco à risca. É o bloco que define onde e quando devemos patrulhar. Tirou completamente a autonomia dos comandantes de guarnição.
- Sargento, quem inventou o bloco programa?
- Deve ser o comandante de Companhia. Foi ele quem assinou a folha do bloco - o sargento pegou a folha e mostrou-a ao Rambo - Olha aqui. Viu?
- É. Realmente. Foi ele quem assinou. Mas por que ele quer que a gente faça ponto base aqui neste fim de mundo? O que a gente tá prevenindo aqui? Furto de besouro?
- Ele dever ter lá seus motivos. Eu já criei muita encrenca por coisas como esta e aprendi que não adianta questionar. Eu não vou criar mais encrenca. Se tá na escala, a gente tem que cumprir, porque. . . Se tiver supervisão e a gente não estiver no local que consta no bloco, é cadeia na certa. Transgressão de natureza grave. Vamos ficar tranqüilos aqui, Rambo. É assim que eles querem. Deixa a bandidagem tomar contra pra lá.
- Sargento, eu acho que o comandante de guarnição deveria ter mais autonomia. Afinal, ninguém melhor do que ele, que trabalha na rua, para saber onde e quando o patrulhamento é mais importante e necessário.
- Ordem é ordem, meu amigo! A gente tem que cumprir.
Enquanto os destemidos milicianos conversavam na estrada empoeirada, há longíquos três quilômetros dali, na cidade de Pasárgada, sem serem incomodados, os traficantes vendiam entorpecentes, os assaltantes roubavam, os ladrões furtavam. . .
Autor: Pracinha