DIA-A-DIA DA RAPINHA
DIA-A-DIA DA RAPINHA
Esta história é fictícia. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
Para quem não conhece, “rapinha” é um termo do jargão militar que denomina uma viatura de pequeno porte (Gol, Palio, Uno) que atende toda sorte de ocorrências, principalmente as mais corriqueiras, como brigas de casal, perturbações do sossego e furtos. Definido o vocábulo, vamos à história.
Ano de 3025.
O Sargento Moisés e o Soldado Rambo, ambos da FPM (Força Pública Militar), saíram com a rapinha do quartel. Mais um turno de serviço. Mal passaram pela sentinela e já receberam o primeiro chamado:
- VP 20599, é a Central. xiii
- Prossiga, Central. xiii
- Desloque para a Rua A. Segundo solicitação de vizinhos, um homem está agredindo os familiares. xiii
- Positivo. Viatura a caminho. xiii
Quando a guarnição se aproximou do local, deparou com um homem em disparada atrás de uma mulher. O homem portava uma faca.
- Pára a viatura, Rambo. Vamos desarmar o furioso - disse o sargento
Rambo parou a viatura, desembarcou-se e, com um golpe de bastão bem colocado, desarmou o marido furioso. O Sargento Moisés encarregou-se de algemá-lo. A mulher que fugia e uma adolescente correram ao encontro do sargento.
- Policial, meu marido me bateu e me expulsou de casa.
A adolescente gritou:
- Esse cachaceiro aí é meu pai. Ele também me bateu.
Era aquela história de sempre, a que consome a maior parte do tempo das viaturas. O homem chega a casa embriagado. Mulher não gosta. Os dois discutem. O marido fica exaltado e agride a mulher e a todos que intervém na contenda.
O sargento perguntou às mulheres.
- Vocês vão querer alguma providência contra ele?
- Eu só queria que vocês dessem um conselho pra ele; e que ele saia de casa.
- Nós não temos competência legal para retirá-lo de casa. A providência policial é levar vocês e ele para a Delegacia.
As moças não gostaram da resposta do sargento. Ir à delegacia daria muito trabalho. Mas. . . Já que só tinham essas duas opções, responderam:
- Então vamos para Delegacia.
A rapinha ficou mais de uma hora empenhada na ocorrência. O boletim foi lavrado, os envolvidos apresentados aos detetives da Polícia Civil, mas, na “hora h”, as vítimas não quiseram representar; ficaram com peninha do cachaceiro.
Saindo da delegacia e dirigindo-se à viatura, o sargento chamou a Central pelo rádio transceptor móvel:
- Central, é a VP 20599. xiii
- Prossiga. xiii
- Central, encerra a ocorrência e libera a viatura. xiii
- 20599, tem uma solicitação com mais de quarentas minutos em espera. Um pai alega que o filho está sumido há cinco dias. xiii
- E só agora ele aciona a FPM. . . Vamos averiguar o fato, Central. Estamos deslocando. xiii
Os militares embarcaram na viatura. O Soldado Rambo vira a chave da ignição. Nada. Nova tentativa. Nada. O motor não queria funcionar. A viatura era de injeção eletrônica e não podia ser empurrada. O jeito era usar a bateria de uma outra viatura. A ocorrência teria que esperar. Depois de muito esforço, os militares conseguiram ligar a viatura, e a guarnição partiu para a próxima ocorrência.
Chegando ao local, os militares contataram o solicitante, que, exaltado, disse:
- Só agora vocês chegam! Agora não precisa mais! Meu filho já chegou em casa. Ele tinha ido pra uma festa rave e resolveu passar uns dias na casa dos amigos. Ele falou que não conseguiu ligar pra nossa casa porque haviam furtado o celular dele.
Diante do que o solicitante falou, o sargento queria mesmo era ir embora sem nem lhe dar muita atenção, mas o batalhão havia determinado que, em ocorrências como aquela, na qual a pessoa dispensa as providências ou nada é constatado, a guarnição deveria colher a assinatura do solicitante ou de algum transeunte. O batalhão não confiava na tropa. O sargento determinou ao solicitante:
- Assine aqui pra mim. . . Como você está dispensando as providências.
- Por que eu tenho que assinar? Vocês não fizeram nada e ainda demoraram a chegar!
- É apenas para provar que nós tivemos aqui. Não deu pra chegar antes. Tivemos uns contratempos com a viatura.
Apesar de ter ficado indignado com a demora, o solicitante assinou o papel. O sargento pensou: “O que o batalhão faz a gente passar. Por que o comandante não confia na gente? Ficar ouvindo conversa fiada de paisano só para colher uma assinatura”. Papel assinado, ocorrência encerrada. O sargento chamou a Central:
- Central, encerra a ocorrência. O desaparecido apareceu. Providência dispensada. xiii
- Tem outro empenho aqui na espera, 20599. O Major Caifás determinou que vocês fizessem contato na Rua B, 171, com o empresário Barrabás. xiii
- Positivo. Viatura a caminho. xiii
Os policiais chegaram à casa do Barrabás. Este estava muito tranqüilo e falou aos policiais:
- Eu perdi meus documentos dois dias atrás e até hoje não encontrei. Eu liguei pro major e ele me falou que mandaria uma viatura aqui para fazer uma ocorrência.
O sargento falou:
- Você explicou ao major que seus documentos foram extraviados; que os documentos não foram furtados?
- Falei. Por quê?
- Porque a FPM só faz ocorrência de furto ou de roubo de documentos. Ocorrência de extravio é na Polícia Civil.
- É? . . Então coloquem no boletim que eu fui furtado, senão eu vou ter que pagar para tirar segunda via dos documentos.
- Barrabás, infelizmente eu não posso fazer isso.
- Ué, e vocês estão aqui pra quê? Eu vou ligar pro major.
- Pode ligar. Nós só viemos aqui porque foi ordem dele. Eu já te expliquei porque não podemos fazer a ocorrência. Tenho mais ocorrências pra atender, com licença.
Barrabás falou para si, resmungando: “Eu pago o teu salário e você não pode fazer uma simples ocorrência pra mim. Depois querem aumento. Não fazem nada!”
O sargento escutou o resmungo de Barrabás e pensou que, se era o Barrabás quem pagava o salário, estava pagando muito mal. O graduado chamou a Central pelo rádio e encerrou a ocorrência. Já tinha outro empenho em espera. Várias pessoas que não quiseram se identificar ligaram para o “190” alegando que estava acontecendo uma festa numa casa da Rua C e que o som estava muito alto, não deixando ninguém dormir. O comandante da rapinha questionou a Central, alegando que, para existir o crime de perturbação do sossego, as vítimas que estavam se sentindo perturbadas teriam que se identificar e aguardar no local a chegada da guarnição. O crime de homicídio é definido como: matar alguém. O crime de perturbação do sossego é definido como: perturbar alguém. . . Dessa forma, alguém tinha que ser vítima. Não adiantou os questionamentos. A Central disse que a ocorrência já tinha sido gerada e que os militares tinham que averiguar a situação.
Os militares foram ao local e constataram que realmente estava ocorrendo uma festa com som muito alto numa residência da Rua C. Chamaram o proprietário, ou melhor, a proprietária, a vereadora Maria Madalena. O sargento disse-lhe:
- Senhora, seus vizinhos estão nos ligando em razão do som da festinha que está acontecendo aí na sua casa.
- Quem são esses vizinhos, sargento? - perguntou a vereadora - Eu estou cursando direito e sei que só se configura o crime de perturbação do sossego se houver vítima.
O sargento sabia que a vereadora estava certa. Mas a FPM queria abraçar tudo e o colocou naquela situação de ilegalidade. Decidiu contornar a situação pela via do diálogo.
- Senhora. Já está tarde. Tem pessoas idosas dormindo. É só a senhora diminuir um pouco o som.
- OK, sargento. Vou abaixar o som.
O volume do som foi abaixado e a rapinha deixou o local. De repente, a Central lançou na rede de rádio que na cidade vizinha de Cafarnaum estava ocorrendo uma briga no Bar Copo Sujo e que haveria indivíduos armados participando da confusão. Foi empenhada a VP da cidade. O Sargento Moisés pediu ao coordenador do turno para deslocar em apoio. O pedido foi autorizado. Os militares das duas guarnições se encontraram e planejaram a abordagem. O bar estava situado num aglomerado bastante violento. As rapinhas deslocaram ao local.
Nesse intervalo, a Central chamou o coordenador, dizendo que havia uma nova solicitação acerca do som alto na casa da vereadora. A Maria Madalena havia aumentado o volume do som assim que a rapinha saiu do local. O coordenador determinou que a ocorrência teria que aguardar, porque a VP 20599 era a única que atendia aquele setor e tinha deslocado em apoio a VP de Cafarnaum.
Quando as duas rapinhas se aproximaram do bar onde estaria ocorrendo a briga, dois elementos fugiram em desabalada para o interior de um beco. Um dos elementos sacou uma arma semi-automática e efetuou três disparos em direção das rapinhas, sem, contudo, acertá-las. O Soldado Rambo, que estava com melhor ângulo de visão, efetuou quatro disparos com o objetivo de neutralizar o agressor. Aparentemente, nenhum dos disparos o atingiu. Os militares desembarcaram-se das viaturas e passaram a perseguir os elementos a pé. O comandante da rapinha de Cafarnaum falou no rádio da viatura:
- Atenção rede. Prioridade, prioridade. Xiii
A Central perguntou:
- Qual viatura tá pedindo prioridade. xiii
- Somos nós. Troca de tiros aqui, Central. xiii
A rede de rádio ficou muda. Todos que ouviram a mensagem ficaram apreensivos. Todos queriam deslocar em apoio. É nessas ocasiões que se percebe a união que existe entre os milicianos. A Central perguntou à rapinha:
- Aqui onde? xiii
Em momentos de dificuldades parece que o cérebro não funciona direito. O comandante da rapinha de Cafarnaum respirou por um segundo e transmitiu:
- Central, aqui na Favela da Orelha Queimada. Dois elementos evadiram das viaturas, um deles efetuou três disparos em nossa direção e ambos adentraram no Beco dos Sem Alma. Os militares da VP 20599 e o meu patrulheiro estão perseguindo a pé os elementos. xiii
O coordenador do policiamento assumiu a rede de rádio e determinou:
- Atenção todas as viaturas que estão próximas ao local da troca de tiros. Desloquem imediatamente em apoio. xiii
Era rezar e ir. O companheiro não podia ficar em dificuldades.
Autor: Pracinha
Tags: polícia, prática policial, rapinha
abril 26th, 2008 at 0:39
Isso sim é o dia-a-dia de um policial! Parabéns pelo texto.
junho 25th, 2008 at 17:07
[...] DIA-A-DIA DA RAPINHA LAVAGEM CEREBRAL [...]
setembro 3rd, 2008 at 17:39
[...] Entretanto, eu também falei dos males exógenos. Falei das duas principais causas da violência: Narcotráfico e impunidade. Também falei de como nasce, cresce e morre um bandido e sobre o dia-a-dia de uma rapinha. [...]