POLÍCIA PRIVATIZADA
POLÍCIA PRIVATIZADA
Ano de 3028.
Era noite. Já havia passado do horário administrativo. O Sargento Langdon, da FPM (Força Pública Militar) encontrava-se na intendência da Unidade se armando para mais um turno de serviço. O intendente disse-lhe:
- Sargento, o capitão comandante de companhia mandou o senhor armar com o celular dos comerciantes.
- Que celular dos comerciantes? Não estou sabendo disso, não.
- Os comerciantes do centro da cidade compraram um celular para a FPM. Se eles precisarem, eles ligam direto para os policiais da viatura.
- Mas que negócio é esse?
- Sargento, parece que o comandante de companhia se reuniu com os comerciantes da área central. Foi dessa reunião que surgiu o celular. Eu só sei isso.
- Mas eu não trabalho só na área central. Eu atendo toda a cidade. Faz o seguinte… Deixe esse celular aí. No próximo serviço eu vou chegar mais cedo e conversar com o comandante. Se ele te perguntar alguma coisa, você diga que me falou sobre o celular, mas que eu não quis armar antes de conversar com ele primeiro. Positivo?
- Positivo, sargento.
O sargento terminou de ser armar e saiu da intendência.
A história do celular não estava lhe cheirando bem. Já havia viaturas que só patrulhavam o centro comercial da cidade e nem podiam ser empenhadas, agora vem esse negócio de “celular dos comerciantes”. Se todo mundo liga para o “190”, porque os comerciantes têm que ser diferentes? Isso é privilegiar certas pessoas. Fere o princípio constitucional da igualdade. O sargento não gostou nem um pouco dessa história. A exemplo de todo miliciano, ele entrou na corporação para proteger a sociedade, sem privilégios de qualquer natureza, muito menos econômica. Uma coisa é policiamento comunitário, outra bem diferente é policiamento privilegiado. A história do celular lhe parecia muito mais a última assertiva. Por que o comandante de companhia criou ou deixou que fosse criado o “celular dos comerciantes”? Seria para os comerciantes terem um atendimento mais ágil, privilegiado? Isso, por acaso, não feriria o princípio da igualdade? Por que uma pessoa que mora numa comunidade carente ou outra qualquer tem que esperar a disponibilidade da viatura, e os comerciantes, não? Os comerciantes são melhores do que as outras pessoas? Essas e outras perguntas passaram pela cabeça do sargento. Essas e outras questões faziam o sargento desanimar cada dia mais de continuar na corporação, mas, para quem passou a metade da vida servindo à FPM, para onde correr?
Autor: Pracinha
Tags: história, improbidade, polícia
maio 6th, 2008 at 16:54
O que será que veio junto com os celulares?
maio 10th, 2008 at 12:51
Só Deus ou o próprio comandante da companhia pode te responder!