OPERAÇÕES MIDIÁTICAS
OPERAÇÕES MIDIÁTICAS
Esta história é fictícia. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
Ano de 3028.
O Sargento Jared e o Soldado Henoc, da FPM (Força Púbica Militar) estavam empenhados no combate ao tráfico de drogas na Favela do Avestruz. Com o apoio de outras guarnições do setor, haviam efetuado prisões importantes naquele aglomerado. Entretanto, não estavam conseguindo prender os líderes das duas quadrilhas rivais que ali atuavam. Com o objetivo de pedir o auxílio do serviço de inteligência da Unidade, o sargento confeccionou um relatório pormenorizado da situação do tráfico no aglomerado, indicando localização das bocas-de-fumo, membros das quadrilhas, modus operandi e mais uma série de detalhes. O documento foi entregue nas mãos do Tenente Abiezer, chefe direto do sargento e comandante do Pelotão, oficial que se dizia muito mais militar do que policial. O tenente queria mesmo era ser da Força Aérea, seguir a carreira do pai, mas não foi aprovado no concurso porque não era bom de matemática. Entrou então para a FPM, cujo concurso exigia menos conhecimento dessa matéria.
O oficial não estava nem aí para o tráfico na favela, nem aí para a comunidade que vivia aterrorizada pelos traficantes. A comunidade que se danasse. O que ele queria na verdade era a promoção, e vislumbrou naquele relatório um atalho para o posto de capitão. Apresentou o relatório ao comandante da Unidade, explicando que uma grande operação no aglomerado poderia ser bem vista pela opinião pública. Claro que a presença da mídia era imprescindível. O oficialato precisa de visibilidade. O plano era que o comandante da Unidade desse uma entrevista falando que ele próprio estava no comando da operação, a qual fora sugerida pelo Tenente Abiezer, e que o resultado fora excelente, culminando na prisão de vários traficantes e na apreensão de grande quantidade de armas e drogas. O plano foi aprovado.
Nos dias seguintes, o tenente fez os primeiros contatos com a imprensa, dando detalhes da operação. O comandante da Unidade determinou que a operação não seria deflagrada pelo pelotão responsável pelo aglomerado, e sim pela Companhia de Repressão Tática, sob o acompanhamento do Tenente Abiezer. O Sargento Jared, portanto, não iria participar.
O sargento nada sabia da operação que estava para acontecer. Com a ajuda de outras guarnições do setor, continuou jogando pesado contra o tráfico. O tenente viu que, daquele jeito, o sargento iria fazer com que o resultado da operação fosse bem menor do que o esperado. Certo dia, o tenente chamou o sargento para uma conversa particular.
- Jared, talvez você não esteja sabendo… Baseado naquele relatório que você me entregou, nós conseguimos vários mandados de busca e apreensão com o juiz da comarca. O comandante da Unidade determinou que a Companhia de Repressão Tática deflagrasse uma grande operação na Favela do Avestruz. Eu vou acompanhar a operação, mas nosso pelotão ficou de fora. Talvez a operação tenha que ser adiada em virtude dos muitos eventos que vão ocorrer nos próximos dias. Então, eu vou te pedir uma coisa.
- Pode pedir, senhor tenente.
- Jared, deixe os traficantes à vontade. Eu estou acompanhado suas ocorrências e vejo que você está jogando pesado contra os traficantes. Se você continuar assim, quando a operação for deflagrada, ela vai ser um fracasso. Você está me entendendo?
- O senhor quer que eu pare de ir à favela? É isso?
- Sim, para a operação dar resultado. Deixe os traficantes à vontade.
A conversa entre o graduado e o oficial prosseguiu. O sargento Jared relutou em aceitar o pedido do tenente, mas não quis frustrar os planos do chefe direto. A operação foi adiada diversas vezes. O sargento não estava suportando mais aquela demora, aquela passividade. Certo dia, quando de serviço no período noturno, o sargento chamou as outras viaturas do setor e desencadeou uma batida policial na favela, culminando na prisão de alguns traficantes.
No início da manhã do dia seguinte, quando o sargento chegou à sede da Unidade para encerrar o serviço, deparou com muitas viaturas blazer da Companhia de Repressão Tática e vários repórteres. Compreendeu que todo aquele aparato era para a realização e filmagem da operação. Todavia, considerando que os traficantes já estavam ressabiados com a batida policial desencadeada poucas horas antes, anteviu o fracasso da operação midiática.
A previsão do sargento se confirmou. O comandante da Unidade teve que falar aos repórteres que, apesar da operação não ter atingido os resultados pretendidos, mostrava que a FPM estava empenhada no combate à criminalidade.
O Tenente Abiezer ficou uma fera quando soube da batida policial realizada pelo Sargento Jared na noite anterior ao dia da operação. Chamou este para conversar e disse-lhe em tom áspero:
- Jared, eu não te falei que não era para ir na favela! Sargento, você não foi leal comigo!
- Senhor, fui eu que fiz o relatório. Eu fui leal com o senhor. Mas o senhor não foi leal comigo. Não me escalou na operação nem me informou o dia em que seria realizada. Se eu soubesse que seria hoje, eu não teria realizado a batida policial. Eu achei que a operação não iria sair do papel! A comunidade havia sido abandonada pela FPM para que o senhor e o comandante da Unidade aparecessem na televisão.
- Saia da minha sala, Jared. Senão eu vou te prender por desrespeito a superior.
- Com licença, senhor tenente. Permissão para me retirar.
Sem querer, o sargento frustrou os planos do tenente de encurtar o tempo da promoção.
Autor: Pracinha
maio 15th, 2008 at 11:35
ô rpazeada fiquei “sentido”… parace que dois artigos do soldadopi nao foram publicados no blogosfera policial… do dia 12 e dia 13 ups…!
maio 15th, 2008 at 16:38
amigo pracinha, tem cada historia que nao posso contar se nao meio ceu cai… em cima da minha cabeçca. rsrsrsr.. fique ligado que vaiter mais…. valeu
maio 15th, 2008 at 22:22
Caro amigo,
Há um soldado aqui na bahia respondendo por fazer declarações como essa q vc fez. Criticar superior é crime militar e, se realmente vc é praça da PM e existe esse oficial a quem vc se refere, vc está passível de ser alcançado e responsabilizado civil, administrativa e penalmente.
Mt bom o seu blog, todavia penso q, assim, vc pode se prejudicar.
maio 16th, 2008 at 12:05
amigo em momento nenhum digo de qual cidade, estado, até mesmo se é no brasil. mas, é verdade que quando querem pegar no pe pegam mesmo…. mas, a vida da gente é feita de desafios. no entanto, se esse fato existiu porque nao punir esse ’superior’? complicado….
maio 19th, 2008 at 13:27
Boa Tarde!!!
Tenho lido seus contos e realmente são muito interessantes…
Mas tenho a sensação que conheço esse Oficial de quem vc falava… não sei se já li alguma coisa sobre ele ou escrita por ele, alguma entrevista… será?
Acho sua iniciativa belíssima, expor um dos lados da tal verdade absoluta da PM.. isso sim é que demonstra quem são os verdadeiros heróis da sociedade.
Parabéns!
Temos que ter cuidado apenas com a forma que conduzimos certos assuntos. Pois como agentes formadores de opiniões, mesmo sem querer, podemos estar induzindo os leitores a um pré-julgamento, o que entendo não ser seu objetivo!!!
Com Respeito e Admiração
maio 19th, 2008 at 18:29
Priscila, muito obrigado pela visita. Fico muito feliz por você ter gostado dos meus contos.
Realmente, não quero induzir ninguém a pré-julgamentos. Talvez eu bata muito na tecla de “supostas” ilegalidades praticadas por oficiais e, com isso, dê a entender que que eu tenho aversão a eles. Não, não é isso.
O que eu quero é mudanças. Quero que eles, que estão na posicão de comando, que estão à frente da tropa, lutem pela PM; que eles não vendam a PM; que lutem pela dignidade do policial militar; etc., etc.,…
Eu tenho muitos colegas oficiais, alguns da minha turma de soldado. Confesso que até admiro alguns oficiais por suas posturas diante de determinados assuntos.
Por exemplo, eu acho que o ex-capitão do BOPE Rodrigo Pimentel falou sabiamente no documentário notícias de uma guerra particular. O Coronel Emir Laranjeira também tem uma visão da PM que eu acho correta em muitos aspectos. E, da mesma forma, muitos outros oficiais.
Eu acho que o mal não está no cargo, e sim na pessoa. Saudações!
junho 11th, 2008 at 17:00
Meu amigo Pracinha.
Acho que você escreve bem, a idéia de fazer algo no futuro colocar a instituição com outro nome fui muito criativo.
Quanto ao comentário do Emmanuel, eu discordo. Isso jamais te prejudicaria.
Porque você não esta atacando a instituição.
Se for perseguido por alguem da PM, procure imediatamente o MP.
Em Goiás com uma queixa por telefone isso tá resolvido.
setembro 3rd, 2008 at 17:47
[...] da coletividade. Talvez eu tenha falado muito mais dos males endógenos. Verdade, falei das operações midiáticas que são desencadeadas como o único objetivo de promover oficiais e de lhes dar visibilidade; [...]