DIVISÕES - PASSAGEM DE COMANDO

PASSAGEM DE COMANDO

Esta história é fictícia. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

Ano de 1898.

O quadro era perturbador. Ataques às forças de segurança em pleno dia das mães, comandadas de dentro de um presídio pelo gângster Al Capone. Organizações criminosas cada vez mais poderosas, engalfinhando-se pelo domínio da venda ilegal de bebidas alcoólicas. Cadeias superlotadas. Leis obsoletas. Jagunços arrastando crianças pelas ruas de uma grande cidade. Banalização da vida. Pais jogando crianças do alto de casarões. Falta de valores e princípios de cidadania e de ética. Corrupção administrativa permeiando as atividades econômicas públicas e privadas. Imperioso se fazia a união das autoridades e da sociedade civil para mudar a perspectiva apocalíptica que se anunciava. Não se podiam tolerar divisões.

Entretanto, a centenária FPM (Força Pública Militar) permanecia alheia a essa conjuntura assustadora. Permanecia fechada às suas antigas tradições. E um de seus importantes batalhões estava prestes a trocar de comandante. A tradição dizia que a passagem de comando era sempre comemorada com pomposas solenidades. Aquela troca de comando não poderia ser diferente.

Alguns dias antes do importante evento, grande parte da tropa foi tirada das ruas para dar uma melhorada na aparência física da sede da Unidade. Praças limpavam o quartel, lavavam os banheiros, recolhiam as folhas caídas no chão, pintavam meios-fios…

Na manhã do dia anterior à solenidade, um pelotão de praças, os quais estariam no horário de folga, treinavam para o tradicional desfile. O sol estava a pino. Escorria suor da fronte dos valorosos milicianos. Desde o início da manhã que os praças estavam treinando ordem unida para a passagem de comando. Muitas autoridades, empresários e pessoas da hi-society estariam presentes ao evento. Não se toleraria erro. A farda tinha de estar impecável. Até a cor da meia foi padronizada.

No horário do almoço, o tenente que comandava o treinamento disse aos praças:

- Praças, eu vou liberar vocês para almoçar, mas daqui a uma hora eu quero todos de volta ao pátio do quartel. Ta muito ruim! Ta ruim demais esse desfile! Cadê a vibração? Vocês esqueceram como é que se marcha?

Um praça tomou posição de sentido e falou ao tenente:

- Tenente, eu preciso levar minha filha ao médico. A consulta já estava marcada. Minha filha não pode faltar. Foi difícil conseguir o horário. Eu não sabia que o treinamento iria se estender até depois do almoço.

- Não tem problema, não, praça. É muito simples. Desmarque a consulta! Você nunca leu no regulamento da FPM (Força Pública Militar) que, a qualquer hora do dia ou da noite, na sede da Unidade ou onde o serviço o exigir, o miliciano deve estar pronto para cumprir a missão que lhe for confiada pelos seus superiores hierárquicos ou impostos pelas leis e regulamentos. Portanto, eu quero todos aqui em forma daqui a uma hora! Gruupamento, sentido! Fooora de forma, marchem!

O treinamento prosseguiu depois do almoço. Terminou somente no final da tarde, quando o dia escureceu. O antigo e o novo comandante do batalhão estiveram o dia todo no quartel e deram algumas espiadas no treinamento. Deram também alguns pitacos A solenidade realizar-se-ia na manhã do dia seguinte. Tudo estava sendo preparado.

Na manhã do dia posterior, os praças foram chegando aos poucos. A chamada foi marcada para bem antes da solenidade. O tenente responsável pelo treinamento e um aspirante colocaram os praças em forma e fizeram a inspeção do fardamento. Dois praças foram comunicados por estarem com o uniforme em desalinho. Um último treinamento foi realizado. As autoridades, os empresários, as pessoas da hi-society e os oficiais superiores foram chegando em suas confortáveis charretes funcionais, puxadas por cavalos puro sangue, e eram recepcionados com sorrisos, abraços e apertos de mão pelo antigo e pelo novo comandante da Unidade:

- Venha, autoridade, entre! Temos muito prazer em recebê-lo.

De repente, um capitão gritou ao tenente:

- Tenente, você prefere ficar aí no pátio, no sol, ou vir aqui para dentro e comer uns salgadinhos… Tomar alguma coisa?

- To indo agora pra aí - respondeu o tenente. Em seguida, disse ao aspirante:

- Aspirante, fique aqui tomando conta do grupamento.

- Sim, senhor, senhor tenente - respondeu o aspirante.

Ainda faltava uma hora para o início da solenidade. Os praças ainda ficaram mais uma hora em forma, no sol, vendo os oficiais e as autoridades se banquetearem; vendo os oficiais e as autoridades conversando alegremente e rindo de tudo. Um praça chegou a perguntar para um colega do lado:

- Será que é o Estado que está pagando o banquete?

Dois minutos antes do início da solenidade, o tenente voltou, assumiu o comando do grupamento de praças e começou a motivá-los:

- Gruupamento, descaaansar! Atenção, me escutem. Tem muita autoridade aqui, inclusive o comandante geral da FPM fez questão de vir. Eu não quero passar vergonha. Se tiver erro, eu vou comunicar. Trabalhar mal. Eu quero muita vibração, movimentos enérgicos, sincronia, postura marcial. Estufem o peito, murchem a barriga, levantem os joelhos. O desfile já vai começar, vamos lá então! Eu não tolero erro, estão me ouvindo! Guerra avisada não mata soldado! Gruupamento, seeentido!

Para quem gosta do militarismo, o desfile foi um sucesso, em que pese alguns praças já tivessem lá seus dez, quinze, vinte anos de FPM.

Os praças vibraram. Realizaram os movimentos enérgica e sincronicamente. Permaneceram absolutamente imóveis no momento em que o antigo e o novo comandante do batalhão, assim como o comandante geral da FPM, proferiram seus longos, nostálgicos e fúteis discursos: Nos idos de 1878, quando eu, na graduação de cadete, marchava garbosamente pelo pátio de terra batida da APM, as coisas eram bem diferentes…


Terminada a solenidade, o tenente disse aos praças:

- Praças, agora eu vou liberar vocês para irem para casa. Para casa. A confraternização que está acontecendo é restrita aos oficiais e às autoridades. Gruupamento, seeentido! Foooora de forma, marchem!

Autor: Pracinha

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3 Responses to “DIVISÕES - PASSAGEM DE COMANDO”

  1. soldadopi Says:

    Meu amigo, voce é um fanfarrão… hehhehe Olha! Aqui no Piaui acontece esse tipo de coisa. Coqueteis pagos pelo Estado e os praças nao podem participar. Porem par surpresa, na passagem de comando na academia de policia Militar do Piaui abriram essa excessao. Infelizmente ainda existe esse tipo de coisa. Ah, depois estarei contando outra: “Qualquer semelhança é mera coincidencia”… Valeu

  2. COTURNO CARIOCA Says:

    OS SERVIDORES PÚBLICOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO não vão mais aceitar a DEMAGOGIA e o DESRESPEITO a quem vem dando SANGUE e a VIDA pelo ESTADO!

    Chega de PAPO FURADO!

    Diante do DEBOCHE e DESRESPEITO aos Servidores Públicos Estaduais, cristalizado pela habitual CONVERSA PARA BOI DORMIR dos políticos do PMDB, não nos resta outra alternativa do que partir para a luta.

    E que a POPULAÇÃO e a IMPRENSA, tão ávidos em criticar a quem trabalha, sangra, vive e morre pela Segurança Pública, não se surpreenda porque a CULPA é e sempre será do Governador.

    União, Força e Honra!

    (Grupo PCERJ)
    MOVIMENTO UNIFICADO DOS SERVIDORES

    Já está marcado um Ato Público para o dia 19 de Junho às 10hs na porta da ALERJ.

  3. Carta aberta ao senhor aluno-a-oficial Danillo Ferreira | blog do pracinha Says:

    [...] do comando, que inclusive pode matar uma criança inocente; falei de como policiais são retirados das ruas, prejudicando a segurança da comunidade, para fazerem teatro militar numa mera passagem de [...]

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