ATÉ QUEM DEVERIA NOS VALORIZAR NOS DESVALORIZA
ATÉ QUEM DEVERIA NOS VALORIZAR NOS DESVALORIZA
Esta história é fictícia. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
A tropa do batalhão da MPFE (Military Police Force Espacial) estava sentada, atenta, ouvindo os oficiais estrelares iniciarem a instrução semanal. Um capitão abriu a instrução da mesma forma como sempre ocorrera na milenar MPFE. A diferença, naquela instrução, era que uma advogada do CVM (Centro de Valorização do Militar) iria dar uma palestra sobre crimes contra a administração pública-espacial e crimes de improbidade administrativa. O capitão fez a tradicional apresentação da palestrante: contou todos os cursos que ela fizera, onde ela já havia trabalhado, suas teses de mestrado, etc., etc., etc. Depois daquelas delongas de rotina, a palestrante iniciou a apresentação, ou melhor, a leitura dos slides. Após a projeção de um slide, ela disse:
- Vejamos alguns exemplos que configuram crime de improbidade administrativa: usar recrutas espaciais para construir imóveis particulares, usar veículo do Estado para passear na praia, usar…
Depois desses exemplos, a palestrante leu mais alguns slides, sem fazer nenhum aprofundamento jurídico acerca dos crimes; enfatizou, apenas, o crime de desrespeito a superior. Em certo momento da leitura, ela disse o seguinte:
- Senhores policiais espaciais, vocês ganham muito bem pelo serviço que fazem. Vocês estão ganhando bem demais! Vocês não podem reclamar do salário nem da corporação.
O clima pesou. Os praças espaciais ficaram indignados. Ganhar bem demais? Um agente da Polícia Rodoviária Espacial ganha mais de quatro vezes do que um soldado da MPFE para fazer o mesmo serviço. Ganhar bem demais? Será que o policial espacial ganha bem demais? Não é ele que troca tiros com bandidos? Não é ele que tenta apaziguar favelas dominadas por narcotraficantes? Não é ele que trabalha em finais de semana e feriados? Não é ele que trabalha nas horas de folga sendo ouvido em delegacias, fóruns, fazendo procedimentos administrativos? Não é ele que primeiro chega aos locais de crime e tem que tomar medidas que caberiam ao delegado de polícia espacial? Não é ele que entra em luta corporal com o criminoso para prendê-lo? Não é ele… Será mesmo que os policiais espaciais ganham bem demais?
Apesar do clima pesado, a palestrante continuou:
- Vocês fizeram um juramento. Vocês têm o dever legal de morrer para cumprir a missão. Vocês não podem se eximir de morrer para salvar a vítima. Vocês que escolheram e fizeram esse juramento.
O modo presunçoso e arrogante da palestrante dizer isso fez os praças lembrarem-se de um vídeo divulgado séculos antes na obsoleta internet.
A palestrante continuou achincalhando os militares, o que gerou um grande zunzunzum. Um capitão estrelar teve que tomar a palavra e dizer:
- A hierarquia e a disciplina ainda são os pilares da milenar MPFE, não se esqueçam disso! Vocês estão reclamando de quê? É muito simples, quem não estiver satisfeito, pede baixa!
O capitão estrelar continuou defendendo a palestrante. Depois, um outro capitão também a defendeu e cedeu novamente a palavra para ela, a qual disse:
- Senhores, é como o capitão está falando. Quem não estiver satisfeito, pede baixa! Eu tenho certeza de que a maioria de vocês, se fizessem um concurso hoje para entrar na MPFE, não passaria.
Parecia que uma alma de oficial estrelar entrara no corpo da palestrante. Ela falava com presunção e deboche. O clima pesou ainda mais. Ouviu-se um comentário entre os praças espaciais:
- Estão querendo fazer lavagem cerebral na gente. Estão querendo nos convencer de que não valemos nada; que ganhamos mais do que merecemos; que devemos nos dobrar ante o poder hierárquico. Querem que pensemos: “se o governo não aumentar nossos salários, tudo bem! Afinal, ganhamos muito mais do que merecemos!”
Um outro praça espacial comentou com o colega do lado:
- A palestrante é advogada do Centro de Valorização do Militar. É ela quem nos defende nos tribunais espaciais. Agora, pensa bem… Imagine só você sendo defendido por uma advogada dessas… Será que ela vai realmente te defender?
A exaustiva instrução foi encerrada, e os praças foram embora pensando: “Quem mais deveria nos valorizar nos desvaloriza.”
Autor: Pracinha
Tags: disciplina, hierarquia, improbidade, instrução, oficial, praças
junho 4th, 2008 at 0:58
Parabéns pela organização dos textos mais recentes, gostei.
Vi que colocou um selo do meu blog. Coloquei um do pracinha lá no DPM tbm.
Abraço!
junho 5th, 2008 at 17:50
amigo valeu pelo selo. to com alguns problemas particulares e nao disponho de muito tempo para estar on-line para melhorar o blog. mas, brevemente estarei a todo vapor… vou copiar um monte de coisas do blogdopracinha… Eita, plágio. rsrsrs… abraço! estarei retribuindo brevemente!
junho 7th, 2008 at 16:35
Seu blog está uma gracinha, obrigada pela publicidade.
junho 12th, 2008 at 8:42
Caro pracinha, lendo esse artigo com reflexao faço o seguinte comentario: é comum protegidos civis dos superiores querer menosprezar os subordinados como se eles fossem os superiores hierarquicos. conheci um cabo que foi humilhado na frente do proprio comandante. O cb falou para o ‘peixe’ com essas palavras: Olha vagabundo não me obrigue a fazer o que eu to querendo que é encher tua cara de bufete! O ‘peixe’ ficou com “as partes que nao passava um cabelo feito a ponta”. Aí o comandante disse: Cabo tu nao tá me vendo aqui não? CB: E o senhor nao me viu nao quando esse ‘#$%&” me ofendeu? De que lado o senhor está comandante?
Pois é pracinha, os caras esquecem que nos somos homens, seres humanos… Mas, aos poucos está mudando. Nós praças é que somos os ‘caras’ sabe porque? O praça resolve suas broncas sozinhos quando solicita apoio o problema já tá resolvido. O “STAR” não. não pode levar uma fechada no semafaro que chama os praças pra resolver o problema. Não tem quem tire o meu orgulho pessoal sabe pracinha.
Ah, brevemente estarei apresentando aos senhores um amigo que vai ilustrar ainda mais, só que um pouco mais moderado, o blogosfera policial. até mais.
junho 12th, 2008 at 12:25
Esperamos pelo seu amigo. Sobre os “amiguinhos do coração”, vc já disse tudo!