A MORTE DO PRACINHA

A MORTE DO PRACINHA

Esta história é fictícia. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

Dois anos de estudos. Como isso foi acontecer? O que foi que houve? Até hoje essas perguntas não saíam da cabeça do Pracinha.

O Pracinha começou sua vida profissional partindo de baixo. Antes de entrar na FPM (Força Pública Militar), era auxiliar de serviços gerais. Estudou, foi aprovado no concurso de soldado, e sofreu vários meses de curso. Foi humilhado, tratado como cachorro, sob a alegação de que um soldado deveria ser superior a tudo. A tudo o Pracinha superou.

O Pracinha não tinha muito tempo na corporação, mas também não tinha pouco. Já possuía maturidade profissional e atuava com tranqüilidade e desenvoltura nas ocorrências. Conhecia bem o sistema militar, embora não concordasse com tudo. Tinha que aceitar! “Se você não está satisfeito, pede baixa”, era o que os superiores sempre diziam. O Pracinha sabia que muitas arbitrariedades eram praticadas sob o manto da hierarquia e da disciplina. Tinha que aceitar!

Estudou muito para tentar ser promovido, para dar uma vida melhor à família. Dois anos de estudos. Prestou concurso para oficiais, que teve uma relação de mais de duzentos candidatos por vaga. Foi aprovado nas provas de conhecimentos, ficando dentro do número de vagas. Treinou muito para os testes físicos. Não queria deixar que todo aquele esforço fosse em vão. Tirou uma excelente nota nos testes. “A vitória é decorrente do esforço”, pensava ele.

A última etapa seria o exame psicológico. O Pracinha estava tranqüilo. Afinal, já havia sido aprovado nesse exame quando ingressou na corporação, e os traços de personalidade avaliados eram os mesmos utilizados no concurso para soldado. Ele ainda já tinha sido aprovado em outros exames psicológicos, como para tirar carteira de motorista, para armar fixo e para comprar arma de fogo. Não seria a primeira vez que ficaria frente a frente com uma psicóloga. Estava confiante.

A família do Pracinha estava eufórica. Seu pai estava feliz; já cantava vitória e espalhava a boa nova para toda a vizinhança, apesar dos pedidos do filho para manter discrição, pois a batalha ainda não estava ganha. Os colegas de farda do Pracinha lhe diziam: “Quando o cara é gente boa a gente torce por ele. Você merece”. O Pracinha estava muito feliz. Tinha o sonho de ter um curso superior. Tinha o sonho de mudar a corporação, de fazer o sistema trabalhar para a comunidade, e não para o próprio sistema. Talvez o erro tenha sido este.

Com sua tranqüilidade habitual, o Pracinha entrou na sala onde faria o exame. Apresentou-se para a psicóloga, conversou um pouco com ela e fez o teste calmamente. Terminado o exame, o Pracinha solicitou permissão para se retirar, certo de que se saíra muito bem. Não tinha motivos para não ser assim.

O Pracinha sempre havia sido um profissional comprometido, dedicado. Gostava de adrenalina, gostava de aventura, gostava do risco. Gostava, principalmente, de prender vagabundo e de vê-lo algemado no xadrez da viatura. Era feliz com a profissão que havia escolhido. Proteger a sociedade, salvar vidas. Ele se sentia importante, útil.

Chega, enfim, o dia do resultado do exame psicológico, que somente era acessível pela internet. O Pracinha liga o computador, que não era dos melhores. A banda não era larga. Não dá para fazer extravagâncias com o salário de praça. É tudo contado, tudo na ponta do lápis.

A página do site demora a abrir. O coração do Pracinha acelera. Pensa nos gritos de alegria que iria dar. Pensa na festa que iria fazer com sua família numa churrascaria da região. Pensa na alegria de seu pai vendo o filho crescer na carreira. Entretanto, quando a página se abriu, o mundo desabou. O Pracinha ficou sem chão, desolado. Não acreditava em que estava vendo. “Contra-indicado, como assim? Eu servi à FPM de Alma e Coração, como pode isso? É um absurdo”, pensava o Pracinha.

Uma dor profunda atingiu o Pracinha. Mas ele não derramou uma lágrima sequer. O sistema era injusto, ele sabia. Se você não está satisfeito, pede baixa.

O pracinha tinha o direito de saber os motivos da contra-indicação. Ele agendou a consulta.

No dia definido, ele entrou na sala da psicóloga. Era uma sala grande, bem decorada, com uma linda vista para a cidade. “Se eu trabalhasse num lugar desses, talvez eu tivesse sido aprovado. Mas meu trabalho é muito diferente, é melindroso, arriscado. A psicóloga não sabe disso, ela não sabe o que é ser polícia, ela não sabe das dificuldades pelas quais passamos”, pensava o Pracinha.

- E aí, você sabe por que não foi aprovado? - perguntou a psicóloga.

- Senhora, se eu soubesse, não viria aqui! - respondeu o Pracinha. A psicóloga achou que a resposta não fora das mais educadas.

- Você foi contra-indicado em dois itens. Dois traços de personalidade incompatíveis com o exercício da atividade ou serviço de natureza policial militar.

- Dois, doutora?- disse o Pracinha, surpreso.

A psicóloga falava com presunção, como se aqueles cerca de quarentas minutos em que estivera com o pracinha aplicando-lhe os testes fossem mais do que suficientes para conhecê-lo completamente.

- Você é uma pessoa agressiva, sendo propenso a agir de maneira violenta ao ser submetido a uma situação de risco ou de pressão externa.

- Como assim, senhora? Eu passo por situações de risco em todo turno de serviço.

- Você também tem dificuldade para estabelecer contatos interpessoais. A Polícia quer um policial comunitário, e você não tem esse perfil!

- Senhora, eu tenho muito mais contato com as pessoas e com a comunidade do que qualquer oficial. Eu trabalho na rua. Atendo ocorrências a todo momento. Intervenho em situações conflituosas toda hora. A senhora não imagina o tanto de conflitos entre casais, familiares, vizinhos e outros que eu já atendi. Senhora, eu trabalho diretamente com a comunidade.

- Você também é desmotivado, mas isso não constava nos itens de reprovação.

- Desmotivado? Eu sou desmotivado, senhora?

- Você é soldado, cabo, sargento. . . Não me lembro. . . O fato é que, agora, eu não posso te aprovar.

- Por que agora?

- Porque o teste avalia a pessoa em determinado momento. Daqui a alguns meses você pode estar apto. Hoje, eu não tenho condições de te aprovar.

- E a senhora não vai fazer nada? Não vai comunicar, então, meu suposto estado emocional aos meus superiores. Não vai me afastar de trabalhar nas ruas. Senhora, eu já fiz muita coisa pela Polícia!

- Você é praça! Você não fez nada mais do que sua obrigação. Se você discorda, entra com liminar.

- Senhora, com licença. Permissão para me retirar.

Para o Pracinha, a consulta com a psicóloga fora pior do que o momento em que viu o resultado do exame psicológico na tela do computador. As palavras dela foram lhe abatendo. Parecia que tinha levado uma surra. Estava sem chão, sem perspectiva alguma. Era a desolação em pessoa. A vida profissional do Pracinha foi perdendo a graça. Acabou a empolgação, a busca pela adrenalina, a vontade de servir. “Não era para ser assim”, pensava ele.

Profissionalmente, o Pracinha foi morrendo, morrendo. . .

Autor: Pracinha

Sobre o exame psicológico, leia também: Avance para águas mais profundas e Psicotécnico / exame psicológico na PM.

É preciso saber viver - Titãs

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13 Responses to “A MORTE DO PRACINHA”

  1. Anonymous Says:

    Vivi uma situaçao parecida…fui reprovado no Barro Branco em dois motivos…rigidez(??) e ansiedade.
    Nao é fácil!! Eu particularmente nao concordo…

  2. Pracinha Says:

    Muito obrigado pela visita e pelo comentário. Eu não entendi a expressão “Barro Branco”. Peço, por gentileza, que vc explique melhor essa expressão e, se quiser, faça um relato da sua história. Não precisa se identificar. Aguardo retorno.

  3. Aderivaldo Cardoso Says:

    Parabéns pelo blog e obrigado por visitar o blog policiamento inteligente.

    Pelo que percebi nesse texto o teste psicológico realizado em sua instituição é realizado pela própria polícia.

    Se vc for do Rio de Janeiro, ontem estive em contato com um capitão daí que está reformulando esse perfil profissiográfico dos senhores…pra falar a verdade esse texto foi inspirado na missão que me pagaram para responder as questões levantadas por policiais do RJ sobre esses quesitos…

    Aqui no DF quem realiza esses testes é a universidade de brasília, o que talvez dê um pouco mais de credibilidade…

    Não temos quadro de psicológos pois nosso serviço é terceirizado.

    Infelizmente já tivemos problemas sérios com alguns colegas que foram reprovados no psicotécnico e entraram por meio de liminar, mas foram problemas de transtornos mentais graves…

    Mas concordo contigo que eles são subjetivos, por isso a necessidade de avaliá-los constantemente…

    Infelizmente precisamos traçar perfis do que desejamos, inclusive em máquinas às vezes…

    Como disse no meu blog não sou defensor do psicotécnico, mas respeito os profissionais “sérios” que realizam esse trabalho…

    abraço

  4. blog do pracinha» Arquivo do Blog » PSICOTÉCNICO / EXAME PSICOLÓGICO NA PM Says:

    [...] blogs também já se manifestaram sobre o assunto. Eu já escrevi dois contos sobre a questão: A morte do pracinha e Avance para águas mais profundas. Também já escreveram sobre o tema os blogs Diário de um PM, [...]

  5. blog do pracinha» Arquivo do Blog » AVANCE PARA ÁGUAS MAIS PROFUNDAS Says:

    [...] o exame psicológico, leia também: A morte do pracinha e Psicotécnico / exame psicológico na [...]

  6. gean Says:

    estou passando por esta situação, neste momento estou com uma liminar no tribunal para ser jugada, axo que todos temos altos e baixos e para vc não ser indicado vc tem q ser muito louco mesmo, e ansiedade, angustia são sentimentos que todos temos, não acredito na veracidade do teste psicologico pois desenhar uma arvore ou fazer um risco torto não pode dizer q vc não sera muito util a pm.

  7. pracinha Says:

    Gean, o jeito é entrar com recurso. Se aí em SC tiver direito a recurso administrativo, é importante que vc contrate uma psicóloga para embasar sua defesa. Não tendo, vc tem que contratar um advogado, ou conseguir um na defensoria pública, e entrar com uma ação contra o Estado. Vc pode tentar a tutela antecipada (liminar) ou entrar com uma ação ordinária, a qual lhe garantirá a vaga no próximo curso se vc ganhar a ação. Dou-lhe a dica para se orientar com um advogado, em especial algum que tennha especialização nessa área. Desculpe pela demora. Saudações!

  8. Eduardo Says:

    Me identifiquei com sua história… aconteceu de maneira parecida comigo e estou para conseguir uma perícia depois de 1 ano e uns meses q entrei com ação em MG. A diferença é que n sou praça… estes testes psicológicos não são sérios, é um absurdos que se recusem alguém em certas funções por acreditar que uns minutos com psicólogo fazendo linhas com a visão tampada podem medir a capacidade funcional de um indivíduo… fazendo afirmações muitas vezes absurdas com a impáfia de quem segue algum tipo de conclusão lógica, e a verdadeira conduta do candidato ser deixada de lado.
    Todos os anos as Policias e no meu caso os Bombeiros perdem bons oficiais e agridem direitos conquistados de gente que batalha para cumprir um bom papel na sociedade e deseja simplesmente uma posição de carreira digna; para aqueles que como eu estudaram em escola pública trabalha em sub-emprego e vê a chance de sua vida jogada no lixo por que os organizadores do concurso estão querendo INVENTAR SERVIÇO P/ PSICÓLOGO. A garra e força de vontade deixam de ser relevante, espero que um dia isso mude…

  9. José Ricardo Says:

    Pracinha, eu também me identifiquei com a história. Também fui contra-indicado no exame psicológico para ingresso no CFO da PMMG. A psicológa afirmou que eu apresentava descontrole emocional e não tinha automotivação. Pracinha, por ser militar, eu não posso me referir de modo depreciativo à psicológa que me contra-indicou, visto que ela é tenente, nem contra a objetividade do exame. Diante disso, vou simplesmente apresentar os fatos.

    Sobre não ter automotivação. Fato: Antes do exame, fui agraciado com o prêmio de Destaque Operacional do Ano. Algum tempo depois do exame e do resultado, fui agraciado na Cia a qual pertenço com o prêmio Destaque Operacional do Mês. Na minha ficha, constam muitas recompensas, e nenhuma punição. Alguém que não tem automotivação passa num concurso com mais de 200 candidatos por vaga? Nem cursinho preparatório eu fiz, estudei em casa. Nunca estudei numa escola particular.

    Sobre o descontrole emocional. Fato: Estranho uma pessoa ter descontrole emocional e trabalhar na rua, atendendo à comunidade, portando armas de fogo. Eu fui aprovado no psicotécnico para tirar carteira de motorista, para ingressar na PM e para adquirir arma de fogo pelo plano da PM. Uma psicológa da própria PM disse que eu não tinha nada que me impedisse de comprar arma de fogo e de portá-la comigo. Como uma pessoa com descontrole emocional pode portar uma arma de fogo?

    Pracinha, lógico que eu entrei com uma ação na Justiça. Na verdade, quando eu soube que tinha sido contra-indicado, eu nem pensei em entrar com uma ação. Pensei simplesmente em tentar o concurso no ano seguinte, tendo em vista o preço cobrado pelos advogados para cuidar do caso (R$ 3.000,00). Eu não tinha esse dinheiro; tive que dividir/parcelar e estou pagando até hoje. Eu iria ter um filho este ano, mas, devido às prestações do advogado, eu e minha esposa adiamos o sonho.

    O que me fez entrar com a ação foi a entrevista de devolução com a psicológa que me contra-indicou. Foi o mesmo sentimento que o pracinha sentiu: desolação, falta de perspectiva… Imagine alguém te falando que você não tem controle emocional nem automotivação, e você não poder fazer nada. Imagine você nem poder pegar nos laudos, não poder tirar cópia dos laudos para fazer seu recurso administrativo.

    Até hoje eu não consigo esquecer as palavras da psicológa:

    - Você não tem automotivação!

    - Você tem descontrole emocional!

    Pracinha, minha família também torceu muito por mim, especialmente minha esposa e meus pais.

    Pracinha, eu também queria dar uma vida melhor à minha família. Achei que conseguiria isso na corporação através do meu esforço. Ledo engano!

    Pracinha, você não sabe o desejo que eu tenho de ler o laudo, coisa que não me foi permitido. Queria pegar naquele laudo e ler linha por linha…

  10. pracinha Says:

    José Ricardo, obrigado pelo testemunho. Espero que mais pessoas narrem suas histórias e falem sobre o que acham sobre o psicotécnico. Saudações!

  11. Modelo de recurso administrativo contra exame psicológico / psicotécnico / psicoteste « Giro policial Says:

    [...] A morte do pracinha [...]

  12. pedro jr Says:

    Fiz os testes psicotecnicos essa semana.
    com tantos itens característicos de um perfil
    policial-militar..sei naum..
    a possibilidade de reprovaçao naum é das menores..

    tô até me conformando..

    Deus abençoe as psicólogas..

  13. bukmacher Says:

    Ciekawy post, dodalem twoj blog do ulubionych, bede tu teraz wpadal czesciej, pozdrawiam

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