Ligações escusas

LIGAÇÕES ESCUSAS

Esta história é fictícia. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

O Cabo Intel já estava irritado com a insistência do Sargento Pentium:

- Sargento, esse negócio vai dar zebra. Eu tô falando… É melhor a gente desistir. Sem mandado de busca é fria.

Talvez realmente desse “zebra”. Certo é que daria grande repercussão.

Tudo começou com telefonemas anônimos recebidos pela MPFE (Military Police Force Espacial) dando conta de que o prefeito de Gothan City possuía cinco armas de fogo em sua residência. Denúncias também apontavam o prefeito como mandante de várias tentativas de homicídio.

A decisão do sargento já estava tomada. Ele ia dar o flagrante no prefeito a qualquer custo. O sargento sempre havia realizado seu serviço de maneira imparcial, sem distinção de qualquer natureza. Queria, sim, invadir a casa do prefeito e dar o flagrante. Tinha convicção de que a denúncia das armas era verídica e, considerando que o crime de posse ilegal de arma de fogo era permanente, não havia nenhuma ilicitude no fato de invadir a casa do ilustre prefeito.

O temor do Cabo Intel, todavia, não era injustificado. A prisão de prefeitos sempre traz grande repercussão na mídia. Prefeitos têm muitos contatos com autoridades civis e militares, a exemplo de delegados, promotores, juízes, coronéis… A guarnição do batalhão de Rondas Táticas Espaciais (RTE), unidade de recobrimento, estava consciente desses detalhes. O receio do cabo Intel fazia sentido, sim. O flagrante tinha que ser bem feito, tudo bem amarrado. O feitiço poderia virar contra o feiticeiro.

O sargento teve uma idéia para dar o flagrante da maneira mais legal possível e apresentou-a para apreciação dos demais integrantes da guarnição:

- Eu tenho uma idéia e acho que pode funcionar. Se eu chegar para o juiz e disser para ele que nós queremos o mandando de busca para a casa do prefeito, a chance de ele negar o nosso pedido aumenta muito, vocês concordam comigo? - Todos anuíram. - Então, eu vou fazer assim… Vou falar com o meritíssimo das denúncias das armas de fogo e da denúncia apontando o morador da casa como autor de várias tentativas de homicídio. Vou inventar um apelido para o prefeito… Vou falar que o denunciante só sabe o apelido do morador da casa. Isso, isso mesmo. Vou falar que a alcunha do suspeito é Pingüim. Eu acho que assim pode funcionar.

- Sargento, se o juiz expedir o mandado, nós teremos que cumpri-lo o mais rápido possível. A informação pode vazar - disse Intel.

- Assim que eu tiver com o mandado em mãos, nós vamos direto para a casa do prefeito e damos o flagrante nele. Não vai ter erro! - respondeu o sargento.

O sargento foi à sede do Poder Judiciário, conseguiu conversar com o juiz e persuadi-lo a expedir o mandado, argumentando que a pessoa procurada era de alta periculosidade, o que não era mentira, afinal, qual o motivo de ser ter em casa cinco armas de fogo? E a suspeita da participação nas tentativas de homicídio?

Com o mandado de busca e apreensão em mãos, o quatro militares da RTE foram com a “barca” até a porta da casa do prefeito. Bateram na porta e foram atendidos pela empregada, a qual chamou o prefeito. Quando o prefeito chegou a porta da casa, o sargento disse-lhe:

- Prefeito, o juiz da comarca expediu um mandado de busca para sua casa. Nós viemos aqui para cumpri-lo. Vou ler o mandado para você.

- Ninguém entra na minha casa antes de eu ligar pro meu advogado - dizendo isto, o prefeito tentou fechar a porta, mas foi impedido pelos militares da guarnição.

Diante da desobediência, não deu nem tempo de ler o mandado para o prefeito. Os militares entraram na casa, informaram o prefeito sobre a denúncia e iniciaram as buscas. O sargento entregou uma cópia do mandado para o prefeito, dizendo-lhe:

- Eu ir ler para você, mas já que você não quis, tome aqui a cópia do mandado. Você pode ligar para quem quiser, até para o Papa! O mandado de busca vai ser cumprido!

Aos poucos, as cinco armas foram aparecendo. Durante as buscas, o prefeito pareceu ter feito uma centena de ligações. Minutos após as primeiras ligações do prefeito, o sargento também começou a receber em seu celular diversas ligações:

- Alô. Sem alteração, senhor coronel.

- Por que o prefeito de Gothan City está sendo preso? - perguntou do outro lado da linha um oficial espacial superior.

- Coronel, o prefeito não está sendo preso, ele já foi preso e será encaminhado para a delegacia da cidade. Qual a dúvida do senhor?

- Por que ele está sendo preso?

- Coronel, ele não está sendo preso, ele já foi preso! Nós cumprimos um mandado de busca na casa dele e encontramos cinco armas de fogo.

- Mas quem expediu esse mandado?

- O juiz da comarca, senhor coronel.

O coronel ficou intrigado com o fato de o juiz da comarca ter expedido um mandado de busca para a casa do prefeito de Gothan City. Via de regra, quem faziam os pedidos de mandados de busca para o Poder Judiciário era o batalhão comandado pelo coronel, unidade que era responsável pelo policiamento da cidade de Gothan City. Ninguém do batalhão de Rondas Táticas Espaciais, unidade de recobrimento, havia informado o coronel sobre o mandado de busca na casa do prefeito de Gothan City. Estranho, muito estranho.

- Senhor coronel, quem passou o número do meu telefone celular para o senhor? - perguntou o sargento.

- Sargento, eu tenho que desligar. - O coronel encerrou a ligação.

Muitos outros oficiais espaciais ligaram para o sargento: o capitão comandante da companhia na qual ele era lotado, o comandante do batalhão de Rondas Táticas Espaciais, o comandante do Centro de Operações Policiais Espaciais, o comandante… Dizem que tudo começou com um telefonema do prefeito para o governador espacial, que ligou para o comandante geral da Military Police Force Espacial, que foi ligando para os oficiais subordinados, até chegar à ponta da linha.

Considerando que, passado os primeiros momentos, o prefeito ficou tranqüilo, e considerando o grande número de ligações recebidas pelo sargento, este resolveu não algemar o prefeito. A repercussão prevista foi confirmada.

Quando estavam na viatura policial, a caminho da delegacia, os policiais ouviram o prefeito conversando no telefone celular:

- Tudo bem coronel. A guarnição tá me levando pra delegacia - Silêncio. - Não, tô precisando de nada não, coronel - Silêncio. - É, se você quiser dar aqueles telefonemas, pode dar - Silêncio. - Já sabe, ele já sabe, sim. Eu já falei com ele. Eu já liguei pra todo mundo, coronel. - O prefeito disse mais algumas coisas. Disse que estava tranqüilo, que sabia que tudo iria se resolver, mas não dispensou a ajuda do interlocutor.

A ocorrência foi lavrada, e o prefeito e os armamentos apreendidos foram apresentados a autoridade de polícia judiciária. Entretanto, por motivo incerto e não sabido, apesar das provas e do material bélico apreendido, o prefeito não foi flagrado. Pagou uma fiança de valor ignorado e foi embora para casa, tal qual o mais justo dos homens.

Autor: Pracinha.

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4 Responses to “Ligações escusas”

  1. Diário do Stive » Blog Archive » Stive ganha mais dois parceiros! Says:

    [...] O primeiro é o misterioso Pracinha, pelo só o que sabemos é de Minas e é um ótimo escritor de contos policiais. Ele ilustra suas estórias baseando em uma instituição(MPFS) de segurança no futuro que tem os me… [...]

  2. soldadopi Says:

    Esse sargento é muito é MACHO! Infelizmente alguns individuos se vendem esquecem eles de uma coisa que se aprender nos cursos de formação: A MORAL. que pra esses inmdividuos custam tao pouco. Eu queria contar uma parecida com essa mas, é perigoso! rs… mas, quem sabe? abraço pracinha.

  3. soldadopi Says:

    pracinha. tbm quero. como faço! rs.. rs… ficou bacana, diferente, atualizado.. SHOW! PArabens!!!!

  4. Diário do Stive » Blog Archive » DATENA - O DEMAGOGO DE PLANTÃO Says:

    [...] Blog da Segurança Pública, Blitz Policial, Abordagem Policial, Caso de Polícia, Sargento Lago, Pracinha, SoldadoPI e Todos demais colegas que estão ou não na nossa lista porque não foi detectado ou [...]

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