Fatalidade ou malfadada e desastrosa decisão?

Algum tempo atrás, eu afirmei que o pracinha é aquele policial “que sofre, que é ferido, alvejado e morto em razão de malfadadas e desastrosas decisões dos oficiais, mas que não as pode questionar. Pondera, não, pracinha, ordem é ordem, não se discute. Missão dada, missão cumprida.” Hoje, analisando o trágico fato de dois policiais militares terem sido metralhados dentro de uma viatura quando faziam policiamento fixo de 12 horas, relembrei dessa minha afirmação e fiquei com a dúvida: Será que foi isso que aconteceu? Os policiais morreram em razão de uma decisão desastrosa? O comandante desses policiais não analisaram a possibilidade de acontecer o que tragicamente aconteceu? É possível dar segurança sem ter segurança?

Depois de ler o texto que um leitor me enviou (ver abaixo), fiquei me imaginando naquela viatura, cumprindo uma ordem de ficar 12 horas num ponto fixo, sem banheiro, sem água…

Considerando que no sistema militar ordem é ordem, eu hipoteticamente estaria lá, com o banco da viatura reclinado, esperando a hora passar para eu largar o turno de serviço e ir embora pra casa encontrar minha família. Hipoteticamente, eu teria morrido, assim como morreram os dois policiais militares. Viraria estatística.

Talvez, se eu fosse oficial, eu seria insubordinado. Por ter sido praça, por conhecer a realidade das ruas, eu não aceitaria nem tomaria a decisão de colocar dois policiais num ponto base de 12 horas. É extremamente desgastante, e eu sei disso. Sei e todos nós praças sabemos que, num ponto base fixo, somos alvos fáceis. E isso é algo que eu não queria dizer, para não dar idéia para bandido, mas é a realidade. Será que os oficiais não sabem disso? Ou será que eles fingem que não sabem?

Se eu fosse oficial, eu me preocuparia com os policiais que trabalhassem na fração que eu comandasse. Eu não aceitaria usar a tropa como massa de manobra ou para favorecer fulano ou ciclano. O bem maior é a vida, e a vida de policiais não tem valor menor do que a de qualquer outra pessoa.

O Tenente Alexandre de Souza fez uma postagem com o título “possivelmente eu teria matado o Luiz Carlos Soares da Costa”. Esta minha postagem que você está lendo agora poderia ter o título “eu teria morrido naquela viatura metralhada”. Sim, eu poderia ter morrido. O sistema militar é regido pelos pilares da hierarquia e da disciplina. Mesmo contrariado e irresignado, eu estaria naquela viatura metralhada cumprindo ordem de ficar parado naquele ponto base por 12 horas.

Será que algo vai mudar depois desta fatalidade? Ou seria melhor chamá-la de de malfadada e desastrosa decisão?

Leia o miniconto enviado por um leitor:

Ordem é ordem!

♦ José Ricardo


Madrugada fria. Dois policiais dentro de uma viatura estacionada no passeio de uma avenida de uma grande cidade. Poucos veículos passavam em frente a eles. A rede de rádio dava notícias de crimes de toda ordem. Mas os policiais não podiam sair do lugar onde estavam. Haviam recebido ordens para fazerem ponto base naquele local. Deveriam ficar doze horas imóveis, levando segurança aos transeuntes.

A imobilidade causava-lhes desconforto. Recostaram o banco da viatura. O tráfego de veículos foi diminuindo à medida que a madrugada avançava. De repente, um veículo escuro parou defronte à viatura. Os ocupantes do automóvel desembarcaram. Os policias imediatamente se assustaram, mas já era tarde demais. Os indivíduos, fortemente armados, metralharam os dois policiais que, segundo um cartaz colocado horas depois no local, trabalhavam em condições desumanas, sem água, banheiro…

Os facínoras abriram as portas das viaturas, recolheram as armas dos policiais e fugiram. Somente familiares e companheiros de profissão choraram a perda daqueles que morreram cumprindo ordens.

Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

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5 Responses to “Fatalidade ou malfadada e desastrosa decisão?”

  1. Alexandre de Sousa Says:

    Possivelmente eu também teria morrido naquela viatura.

  2. Pracinha Says:

    Senhor Tenente Alexandre de Souza, se o senhor fosse praça, sim. Mas, tendo em vista que o senhor é oficial, não. O senhor nem estaria naquela viatura fazendo policiamento fixo de 12 horas. Eram dois praças que estavam lá, cumprindo ordens, ordens que não podiam questionar. Morreram sem chance de defesa. Tanto sem chance de se defenderem de uma decisão que os colocou lá naquele ponto base, como sem chance de se defenderem dos facínoras que os mataram. Duas vezes sem chance de defesa!
    Oficial não faz o tipo de policiamento que eles faziam. Só praça! Portanto, o senhor não teria morrido.
    Gostaria muito de ver os oficiais mudando aquilo que está ao alcance deles. A morte daqueles dois praças poderia ter sido evitada. Nós sabemos disso. Você sabe disso.
    Até quando isso vai continuar?

  3. soldadopi Says:

    meu amigo pracinha. tenho algumas fotos e videos de um batalhao (2º BPM em Parnaiba-PI) Pracinha, em tese, o local mais seguro da cidade é um quartel, né verdade? Os CARAS ficam com raiva quando a gente expoe certas coisas, no entanto nada fazem para resolver os problemas. Esse batalhao possui um muro frontal até bonito no entanto sem portao, os muros laterias tem cerca de 1m e uma cerca em que alguns pontos nao existe mais cerca (e NÃO é de arame farpado), os fundos do quartel é uma lago e nao tem nenhum obstaculo (a nao ser as águas dessa pequena lagoa), e iluminação é horrivel…. Pracinha, a guarda deste quartel é feita por 3 homens. Tava pensando… vou mostrar algumas fotos… não posso ser omisso com a sociedade a qual eu tbm faço parte…. Aí, como fazer segurança sem segurança?

  4. soldado da paz mas treinado para guerra Says:

    nao sei o que falar, mas teria morrido tambem nessa viatura. oficial so quer saber de puxar saco de politico e dos coroneis e de quem lhe dao alguns favores $$$,
    Esses caras nao passam de meros humanos mortais sera q eles se esquencem disso??!!!

  5. pracinha Says:

    Soldadopi, você disse que em certo batalhão do Piauí apenas três policiais fazem a segurança do aquartelamento. Parece que no meu Estado as coisas andam um pouco piores. Em determinado batalhão daqui, que nem muro tem, apenas um policial militar faz a segurança do aquartelamento. Graças à Deus, e somente à Deus, ainda não aconteceu nenhuma desgraça. Espero que nunca aconteça, pois o sentinela seria mais um praça a morrer cumprindo ordens. Claro que os oficiais não podem mudar tudo, mas coisas como essas eles poderiam e deveriam mudar. Por que eles não mudam?

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