Carta aberta ao senhor aluno-a-oficial Danillo Ferreira
quarta-feira, setembro 3rd, 2008De Pracinha, vítima execrável da inanição
Ao senhor aluno-a-oficial Danillo Ferreira
O senhor tem e sempre teve meu respeito. Quanto ao pronome de tratamento “senhor”, é fruto do regulamento, porque, para mim, só existe um senhor, Deus, e somente um mestre, Jesus Cristo (Mateus 23-8,9). Mas um mero pronome de tratamento não mata ninguém…
Tudo me leva a crer que eu seja a execrável figura vítima da inanição sobre a qual o senhor se referiu. Se o senhor não disse diretamente a mim, disse aos praças e, portanto, também me atinge, porque sou um praça.
inanição
i.na.ni.ção
sf (lat inanitione) 1 Estado de inane. 2 Estado do que é vazio; vacuidade. 3 Grande debilidade ou fraqueza por falta de alimento. 4 Biol Estado de asfixia de uma célula. - Michaelis - Moderno Dicionário da Língua Portuguesa
inane
i.na.ne
adj (lat inane) 1 Vazio, oco. 2 Frívolo, fútil, inútil, vão. - Michaelis - Moderno Dicionário da Língua Portuguesa
Se o senhor acha que sou vítima da execrável inanição por ser praça ou por não ter passado no concurso/vestibular do CFO, é uma pena. Não é a aprovação em um concurso que faz uma pessoa ser melhor do que a outra ou, muito menos, ser vítima da execrável inanição. Existem alguns oficiais que assim pensam e vivem dizendo isso, mandando os praças estudarem… Para mim, Jesus foi a pessoa mais importante da história da humanidade, que disse as coisas mais sábias que já se ouviram, mas não tinha nenhum diploma de Doutor da Lei.
Se o senhor também pensa como os oficiais que mencionei, eu vou, muito a contragosto, falar um pouco da minha execrável inanição, exercer o meu direito de resposta. Não gosto do narcisismo, prefiro falar de idéias.
Saiba o senhor que somente não somos pares hierárquicos em razão do “subjetivismo da injustiça”. Mas, talvez, a “terra que ninguém conhece” faça a justiça prevalecer. Porém, é melhor não falar das feridas do passado. Gostaria muito, muito mesmo de saber qual foi a relação de candidatos por vaga do concurso que o senhor fez para ingressar no CFO da PMBA? Aguardo resposta.
Eu realmente sou contra, talvez igual ao senhor seja, a esses “processo de adaptação”, “ajustamentos primários”, “trotes”, ou seja lá qual for a expressão, porque eu os conheço bem de perto e, quando falo sobre eles, é porque eu os confrotei com a realidade das ruas. Para mim, isso não tem nenhum valor, mas saiba que eu já passei por dois “trotes” na vida militar e outros dois na vida civil, e não é por isso que eu sinto ou vou me sentir superior a quem quer que seja. Todos nascemos iguais, do útero de uma mulher, e, no final da vida, iremos todos para o mesmo lugar, para debaixo da terra.
Senhor, eu ando sem tempo de ficar online, uma vez que estou inanimente tentando dar melhores condições de vida à minha família; De toda forma, como o senhor me pediu que participasse das postagens do Abordagem Policial, vou comentar aqui algo que li por lá. O senhor disse que não era preciso ter sentado numa viatura para falar sobre segurança pública. Para falar sobre segurança pública, pode até ser que sim, mas, para falar sobre a ação do policial, para criticá-lo, para acusá-lo de excesso ou de arbitrariedade, tem sim que ter sentado numa viatura policial. Olhando de fora, tudo é muito fácil, mas quando você está lá na iminência de morrer, é outra coisa…
Acusam-me de provocar divisões. Eu quero é a união. Não é porque eu critico certas coisas que quero provocar divisões. O senhor aluno-a-oficial Emmanoel Almeida disse até que os posts do meu blog eram pobres (inanes) em conteúdo. Sim, não nego. Fiz o melhor que pude, mas talvez eu não tenha conseguido alcançar o meu objetivo, que era o de fazer as pessoas, especialmente os militares, refletirem sobre os males exógenos e endógenos que afetam a PM e, conseqüentemente, a segurança da coletividade. Talvez eu tenha falado muito mais dos males endógenos. Verdade, falei das operações midiáticas que são desencadeadas com o único objetivo de promover oficiais e de lhes dar visibilidade; falei das relações escusas envolvendo oficiais e políticos, que extrapolam a prevaricação e acabam por trazer deletérias conseqüências aos praças; falei das operações fantasmas, que são determinadas pelos oficiais sem se fazer nenhum planejamento prévio e acabam por não ter nenhuma utilidade ou por colocar os praças em risco; falei da necessidade que alguns oficiais tem em controlar todos os passos do praça e acabam por trazer prejuízos ao policiamento; falei de como alguns oficiais querem fazer um policiamento privatizado, beneficiando apenas comerciantes e empresários; falei da negligência do comando, que inclusive pode matar uma criança inocente; falei de como policiais são retirados das ruas, prejudicando a segurança da comunidade, para fazerem teatro militar numa mera passagem de comando; falei de uma PM que destrói os sonhos de seus combatentes; falei de como somos desvalorizados por pessoas que deveriam nos valorizar; falei do ciclo vicioso e da lavagem cerebral que ocorre nas Loucademias, impedindo que os praças e oficiais tenham um melhor relacionamento interpessoal; falei de como os alunos dos cursos de formação das Loucademias são “extorquidos” e como isso pode suscitar o ódio pelos oficiais; falei de supostas fraudes em concursos… Acho que falei demais, não foi? Talvez eu tenha sido inconveniente.
Entretanto, eu também falei dos males exógenos. Falei das duas principais causas da violência no Brasil: Narcotráfico e impunidade. Também falei sobre como nasce, cresce e morre um bandido, sobre o dia-a-dia de uma rapinha, sobre a motivação de um cadete…
Estou sem tempo para escrever mais; finalizo por aqui. Fraternais saudações e espero um dia lhe encontrar, prestar-lhe uma sincera continência (talvez a “terra que ninguém conheçe” me dispense dessa formalidade) e, se o senhor me permitir, um aperto de mão.
Brasil, 03 de setembro de 2008
PRACINHA
VÍTIMA EXECRÁVEL DA INANIÇÃO



